Para quem quer investir melhor

Diferença entre P/L e P/VP: qual indicador usar e quando

Conteúdo educacional elaborado pela equipe Portix · 8 min de leitura · Publicado em 4 de outubro de 2026

A diferença entre P/L e P/VP está no que cada um compara com o preço da ação: o P/L usa o lucro dos últimos doze meses, e o P/VP usa o patrimônio líquido contábil. O P/L funciona melhor em empresas com lucro estável, e o P/VP em negócios em que o patrimônio explica o resultado, como bancos e seguradoras. Os dois se conectam pelo ROE, e é olhando os três juntos que um múltiplo baixo deixa de parecer automaticamente uma pechincha.

O que mede o P/L e o que mede o P/VP?

O P/L divide o preço da ação pelo lucro por ação (LPA) dos últimos doze meses. Ele mostra quantos reais o mercado paga hoje por cada real de lucro anual da empresa. Um P/L de 10 significa que o preço equivale a dez anos do lucro atual, se esse lucro ficasse parado. O inverso do P/L, o lucro dividido pelo preço, é o earnings yield: um P/L de 10 equivale a um lucro de 10% do preço por ano.

O P/VP divide o preço da ação pelo valor patrimonial por ação (VPA), que é o patrimônio líquido dividido pelo número de ações. O patrimônio líquido é o que sobra no balanço depois de descontar todas as dívidas e obrigações dos ativos. Um P/VP de 2 significa que o mercado paga duas vezes o valor contábil desse patrimônio.

Repare na diferença de natureza. O lucro é um fluxo: mede o que a empresa gerou em um período. O patrimônio é um estoque: mede o que ela acumulou até uma data. Por isso, o P/L reage rápido a um trimestre bom ou ruim, enquanto o P/VP muda devagar.

Como o ROE liga os dois indicadores?

O ROE é o lucro líquido dividido pelo patrimônio líquido. Com uma conta de frações, dá para ver que os três indicadores estão amarrados: o P/VP é igual ao P/L multiplicado pelo ROE. Quando você conhece dois deles, o terceiro está definido.

Por isso não faz sentido olhar o P/VP sozinho. Uma empresa que gera muito lucro sobre o próprio patrimônio, ou seja, com ROE alto, tende a ser negociada bem acima do valor contábil, porque cada real de patrimônio produz bastante resultado. Uma empresa com ROE baixo tende a ficar perto ou abaixo do valor contábil, porque o patrimônio rende pouco.

A pergunta útil, portanto, não é se o P/VP está acima ou abaixo de 1, e sim se o P/VP é compatível com o ROE que a empresa consegue sustentar ao longo dos anos.

Exemplo numérico: duas empresas, duas leituras

Os números abaixo são fictícios e redondos, só para ilustrar a conta. A empresa A tem ação a R$ 20, lucro por ação de R$ 2 nos últimos doze meses e valor patrimonial por ação de R$ 10. A empresa B tem ação a R$ 8, lucro por ação de R$ 0,50 e valor patrimonial por ação de R$ 16.

Calcule os múltiplos da empresa A: P/L de 20 dividido por 2, igual a 10, e P/VP de 20 dividido por 10, igual a 2. O ROE é 2 dividido por 10, igual a 20% ao ano. Confira a amarração: P/L de 10 vezes ROE de 20% dá 2, exatamente o P/VP.

Agora a empresa B: P/L de 8 dividido por 0,50, igual a 16, e P/VP de 8 dividido por 16, igual a 0,5. O ROE é 0,50 dividido por 16, igual a 3,125% ao ano. De novo, 16 vezes 3,125% dá 0,5.

Quem olha só o P/VP conclui que B está barata e A está cara. Quem olha só o P/L conclui o contrário. A empresa B é negociada pela metade do patrimônio contábil, mas esse patrimônio rende pouco: o lucro é baixo em relação a ele, e por isso o P/L fica alto. A empresa A custa o dobro do patrimônio, mas gera lucro forte sobre ele.

Nada disso diz qual das duas é melhor para você. Diz quais perguntas fazer a seguir. Para B: por que o ROE é tão baixo, é algo passageiro ou estrutural, e o patrimônio do balanço vale mesmo o que está escrito? Para A: o ROE de 20% se sustenta nos próximos anos ou veio de um ano excepcional?

Quando o P/L funciona melhor?

O P/L é mais confiável em empresas com lucro relativamente estável e recorrente, em que o resultado dos últimos doze meses representa bem o que o negócio costuma gerar. Nesses casos, ele permite comparar empresas do mesmo setor e a própria empresa com o seu histórico.

Ele perde utilidade em três situações. Primeiro, quando há prejuízo: o P/L fica negativo e não tem leitura. Segundo, quando o lucro foi inflado ou reduzido por itens não recorrentes, como a venda de um imóvel ou uma baixa contábil. Terceiro, em empresas cíclicas, como mineração, siderurgia e outras ligadas a preços de commodities: no pico do ciclo, o lucro alto faz o P/L parecer baixo, e no fundo do ciclo o lucro deprimido faz o P/L parecer alto.

Quando o P/VP funciona melhor?

O P/VP faz mais sentido quando o patrimônio é a matéria-prima do negócio. É o caso de bancos e seguradoras: o capital próprio é o que permite emprestar ou assumir riscos, e o resultado depende diretamente do quanto esse capital rende. Por isso, na análise de bancos, P/VP e ROE costumam andar juntos.

Ele também ajuda em empresas com muitos ativos físicos, desde que você lembre que o valor contábil reflete custos históricos e depreciação, não o preço que esses ativos teriam hoje.

Em negócios de tecnologia, serviços e marcas, o P/VP diz pouco. O que gera valor nessas empresas, como software, carteira de clientes e reputação, muitas vezes nem aparece no balanço. Também fica distorcido quando o patrimônio é muito pequeno ou negativo, por exemplo depois de anos de prejuízo ou de recompras de ações e distribuições volumosas.

Por que os múltiplos mudam na temporada de balanços?

Os resultados do terceiro trimestre saem ao longo de outubro e novembro. A cada divulgação, o lucro de doze meses é recalculado: entra o trimestre novo e sai o mesmo trimestre do ano anterior. Isso pode mudar o P/L de forma relevante sem que o preço da ação se mexa.

Um exemplo com números fictícios: uma ação custa R$ 30 e o lucro por ação de doze meses é R$ 3, então o P/L é 10. No novo balanço, sai um trimestre antigo que tinha lucro de R$ 1 por ação e entra um trimestre novo com lucro de R$ 0,40. O lucro de doze meses cai para R$ 2,40, e o P/L sobe para 30 dividido por 2,40, igual a 12,5. A ação ficou mais cara em relação ao lucro com o mesmo preço.

O P/VP muda menos, porque o patrimônio só cresce com o lucro retido e só diminui com prejuízo ou distribuições. Se você usa múltiplos para comparar empresas, confira se todos foram calculados com o balanço mais recente de cada uma.

Erros comuns ao usar P/L e P/VP

Os dois indicadores são simples de calcular e fáceis de interpretar mal. Estes são os deslizes que mais aparecem.

  • Tratar P/L baixo ou P/VP abaixo de 1 como sinônimo de ação barata, sem perguntar por que o mercado paga pouco.
  • Comparar P/L ou P/VP de empresas de setores diferentes, como um banco e uma empresa de software.
  • Usar o P/L em empresa com prejuízo ou com lucro turbinado por um evento que não se repete.
  • Ler o P/L de uma empresa cíclica no pico do ciclo como se aquele lucro fosse permanente.
  • Olhar o P/VP sem o ROE ao lado, quando é justamente o ROE que explica o múltiplo.
  • Comparar múltiplos calculados com balanços de datas diferentes durante a temporada de resultados.
  • Buscar um número mágico. Não existe P/L ou P/VP ideal que sirva para todas as empresas.

Checklist antes de tirar conclusões de um múltiplo

Antes de formar uma opinião com base em P/L ou P/VP, passe por estas perguntas.

  • O lucro dos últimos doze meses é recorrente ou tem itens que não se repetem?
  • A empresa é cíclica? Em que ponto do ciclo o lucro atual parece estar?
  • O patrimônio explica o negócio, como em bancos, ou o valor está em ativos que não aparecem no balanço?
  • O ROE é compatível com o P/VP? Esse ROE se sustenta em vários anos?
  • Os múltiplos estão sendo comparados com empresas do mesmo setor e com o histórico da própria empresa?
  • Todos os números usam o balanço mais recente?

Como aplicar na sua carteira

Pegue as empresas que você já tem e anote, para cada uma, P/L, P/VP e ROE lado a lado. Em seguida, compare com a mediana do setor e com os anos anteriores da própria empresa. O objetivo não é achar o múltiplo mais baixo, e sim entender o que o preço atual está pressupondo sobre o lucro e o patrimônio de cada negócio.

Repita o exercício depois de cada balanço trimestral. Quando um múltiplo muda muito, descubra se foi o preço que andou ou o lucro que mudou. Use os indicadores como ponto de partida para perguntas, não como oráculo.

Em resumo

  • P/L compara o preço com o lucro de doze meses; P/VP compara o preço com o patrimônio contábil.
  • O P/VP é igual ao P/L multiplicado pelo ROE: avalie os três juntos.
  • P/L funciona melhor com lucro estável; P/VP, quando o patrimônio explica o negócio, como em bancos.
  • A cada balanço, o lucro de doze meses muda e o P/L pode mudar sem o preço se mexer.
  • Múltiplo baixo é o começo de uma pergunta, não a resposta.

Na Portix: Ativos

Na aba Ativos, a Portix mostra o P/L de doze meses, o P/VP e outros múltiplos de cada empresa no bloco Valuation e Múltiplos, com a comparação frente à mediana do setor, para você aplicar este roteiro.

Analisar minha carteira grátis

Veja na prática: fundamentos de empresas da B3

Pratique a leitura de indicadores com os números anuais da CVM de empresas conhecidas:

Ver todas as empresas por setor

Termos do glossário neste artigo

Continue lendo

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e não constitui recomendação, oferta ou aconselhamento de investimento. Rentabilidade passada não garante resultados futuros. Regras tributárias e regulatórias podem mudar.